O que seria esta especial condição que alguém pode alcançar?
A história do homem tem dado indícios de quais ingredientes poderiam ser levados em consideração para qualificar alguém como Mestre. Mas hoje, o que significa ser um Mestre?
Costumamos considerar Mestre, aquele que é versado, habilitado ou capacitado em uma arte ou ciência. Por exemplo, Vila-Lobos na música, Jorge Amado na literatura, Oscar Niemayer na Arquitetura, Aleijadinho na arte barroca, Einstein na física e tantos outros.
O dicionário Aurélio nos dá alguns indicativos:
Mestre.... 1.Homem que ensina; professor; 2.Aquele que é perito ou versado numa ciência ou arte...3.Homem superior e de muito saber: 4.Aquele que se avantaja em qualquer coisa: Em criar confusões ele é mestre...11.Diretor espiritual; mentor, confessor...13.Aquele que tem o mestrado (5)...21.Bras. Cap. Título concedido a capoeiristas mais experientes, com notório saber e longa vivência na capoeira...23.Que é superior a... 25.Que é o mais importante; que serve de base ou de guia; principal, fundamental:
Nas Artes Marciais, ao longo da história, fomos associando este título a indivíduos realmente excepcionais, tais como: Ms Sokaku Takeda (Daitoryu Aikijujutsu), Ms Murihei Ueshiba (Aikido), Ms Funakoshi (Karatê), Ms Young Sul Choi (Hapkido), Ms Choi Hong Hi (Taekwondo), Ms Hwang Kee (Môo Duk Kwan) entre tantos que deram uma contribuição espetacular para inúmeras modalidades de Artes Marciais ou Esportes de Combates e tantos outros com o mesmo grau de importância.
Todavia, nestes últimos anos muita coisa mudou. Alguns valores deram espaço a outros que até então eram inconcebíveis. A modernização das Artes Marciais, na tentativa de se adaptarem aos novos tempos, fez com que perdessem sua essência, como a luta pela sobrevivência ou o vencer para não ser vencido, a união entre a prática física e a espiritual, a filosofia, ou sua própria história dando lugar ao novo, ou seja, às competições, às exibições e o espetáculo.
Não seria radical afirmar que estamos na contramão da história e que nos perdemos no nosso próprio egoísmo, desrespeitando todo um acúmulo de centenas de anos de trabalho de um considerável conhecimento das potencialidades humanas.
Ora, hoje o termo mestre é usado como cordialidade ou educação pelo conjunto da sociedade. Também pertence ao meio acadêmico, referindo-se àquele que conclui um curso Stricto-sensu, um mestrado.
Para as Artes Marciais este termo é uma designação a praticantes muito experientes e com longo tempo de estudo de sua arte.
No Taekwondo, não é diferente. Os praticantes, depois de atingirem o estágio de Faixa Preta reiniciam um outro e longo caminho de aprendizagem e essa graduação é geralmente denominada Dan, do 1º ao 9º ou 10º.
Até bem pouco tempo não era comum encontrar pessoas com essas graduações, o que para muitos dos praticantes significava um sonho. Hoje isto mudou, ser um Faixa Preta perdeu o encanto. Aquilo que era algo de difícil acesso ou conquista, perdeu o charme. Encontramos Faixas Pretas em qualquer lugar. E o que é pior, com comportamento totalmente incoerente com o estágio conquistado.
Já que ser graduado com Dans ficou comum, a moda agora é virar mestre. E alguns chegam a este estágio de maneiras tão estranhas que chega a espantar; o comércio, a politicagem, chantagem, submissão, subserviência, prestação de serviços, favores e tantas outras. Menos com treinos, dedicação, reflexão, humildade, meditação e compromisso com a conduta adequada. Ser um mestre hoje se popularizou tanto que já esta perdendo a graça; a nova onda, pelo jeito, será ser Grão-Mestre. Grande nem que seja nos dans, já que a maestria e a grandeza do espírito pouco importa. É desagradável ver que muitos graduados querem mais graus e esquecem que grandes conquistas implicam em grandes responsabilidades.
Ser Mestre é uma condição muito especial e não é para qualquer um. Alguns mestres atuais podem até desfilar com seus “risquinhos na faixa”, mas, enganam-se a si mesmos e a outros expondo as Artes Marciais ao descrédito. O lamentável é que não adquiriram isso sozinho, tiveram um Grão-Mestre que compactuando com estas discrepâncias, não percebendo que também se tornariam vítimas nessa banalização de Dans e Mestres; sem contar o desrespeito com aqueles que fazem jus a tal distinção.
Na essência da nossa reflexão, o verdadeiro mestre é, portanto, aquele que se tornou senhor de si, isto é, mestre de si mesmo. Alguém com o espírito diferenciado e mais próximo da iluminação. Segundo Georges Gusdorf: “Professores há muitos; mestres, dignos deste nome raros o são. O mestre é. Porque a sua vida tem um sentido, ensina a possibilidade de existir (...).” Entende-se que os professores ensinam por palavras, com os Mestres aprendemos por ações e exemplos.
Jesus, segundo o Evangelho de São Lucas 6:40 disse: Não é o discípulo mais do que o seu mestre; mas todo o que for bem instruído será como o seu mestre. Não seria esta a missão de um Mestre? Colaborar para crescimento e independência do aluno? Não seria ensiná-lo a andar por si só e poder se orgulhar por dar essa contribuição? Não seria este o ideal de criação dos nossos filhos?
A questão do ser mestre vai muito além da própria definição. É muito mais que um adjetivo, é uma condição, um papel que se desempenha. Por isso, devemos considerar que esse termo especial nem sempre é usado para definir qualidade, pois há casos em que o sujeito é mestre, mas em algo nada louvável. Consideremos que alguém somente será um verdadeiro mestre, se tiver alunos, e essa qualidade só ficará evidente quando houver uma relação de aprendizagem, mas não uma relação simples, algo bem maior para o seu discípulo como; a tarefa de educar, dar rumo, direção, um norte, uma causa, enfim, um sentido para a vida.
No sentido filosófico do termo, a existência do mestre pode ser mensurada pela qualidade de sua obra e pelas atitudes de seus discípulos.
“O mestre e o discípulo não se descobrem como tais senão na relação que os une (...) pode-se dizer que é o discípulo que faz o mestre, e o mestre que faz o discípulo.” Gusdorf (1970:250).
Costumamos fazer muita confusão nesta relação, pois, valorizamos em demasia o título, e esquecemos de sua essência. A relação Mestre / Aluno, implica em um aceitar o outro e se isto não acontece; nada mais tem sentido. Vemos muitos mestres querendo arrancar o respeito pela simples ostentação deste grau, ou até à força, sem perceberem que eles também precisam ser aceitos, pois caso contrário, o ser mestre não significará nada.
Portanto, mesmo que nos esforcemos para manter dentro das Artes Marciais alguns costumes que aprendemos e que continuamos a reproduzi-los, faz-se necessária uma séria reflexão sobre esta questão; caso contrário nos tornaremos “mestres” do nada, e o pior, nem de nós mesmos.
De qualquer forma, mesmo que alguns achem mais prático entender a condição de mestre como um mero grau burocrático, haverá outros em busca de um verdadeiro Mestre, não um instrutor, um professor, um técnico ou um bom treinador, essa é a parte mais fácil. Um mestre no sentido amplo da palavra com igual importância, que se enquadre no sentido mais nobre do termo. Alguém com a missão de ensinar um pouco mais do que técnicas, que saiba conduzir os seus no caminho ideal das artes marciais, além de entender e assumir integralmente sua condição humana.
José Afonso Nunes
F. Preta 2º Dan – CBTKD
Mossoró - RN
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domingo, 30 de novembro de 2008
UMA REFLEXÃO SOBRE SER MESTRE
Entendendo a Disciplina no Dojang
Por: Mark VanSchuyver
O ginásio estava lotado com pessoas vestidas em uniformes brancos e faixas coloridas. O líder da congregação se levantou, era um homem asiático que usava uma faixa preta esfarrapada. Ele deu um comando que pôs em ação os faixas pretas. Em segundos o grupo estava atento. No comando seguinte eles sentaram de pernas cruzadas. Foi interessante ver, nos Estados Unidos, cinqüenta pessoas baixando como peças de dominó. Isso num país que se orgulha do individualismo, independência e não conformidade. Isto ainda acontece a cada dia nas escolas de taekwondo por toda a nação. Por que os norte-americanos fazem filas para entrar em tais escolas e sujeitam-se a este tipo de tratamento? Porque eles reconhecem que disciplina é necessária para o sucesso no estudo de artes marciais, diz Kyu Il Cho, um instrutor de taekwondo que administra duas escolas em Oklahoma. E cada vez mais os americanos estão reconhecendo o valor da disciplina em todos os aspectos das suas vidas, disse ele. Disciplina também tem um papel importante na administração de escola de artes marciais bem sucedidas. Depois de 20 anos neste negócio, Cho sustenta que a disciplina é o que difere o taekwondo de outros estilos de autodefesa. ´Disciplina deve estar presente nos estudantes, professores e nos negócios`, ele diz.Quando se tem disciplina no taekwondo, consegue-se vantagem sobre a maioria das outras artes por causa de seu fundo militar. A maioria, se não todos os estilos, foi projetada para ensinar a um grande número de soldados a lutar em um breve período de tempo. Na Coréia, o taekwondo moderno continua sendo usado para preparar soldados para combate corpo a corpo.A ênfase continua na disciplina e pode ser atribuída parcialmente ao fato de que praticamente todos instrutores coreanos passaram um tempo no exército. Na Coréia, nós temos uma obrigação, diz Cho: ´Todo o homens tem que passar um tempo nas forças armadas`. O treinamento militar severo experimentado pelos professores de artes marciais coreanos reforça a crença no valor da disciplina, e é o que eles transferem para o dojang. Entre um punhado de instrutores cuja imigração para os Estados Unidos foi patrocinada por um membro da Federação de Taekwondo Mundial, Cho mantém os padrões mais altos no seu dojang. O que não surpreende que ele receba respeito total dos seus alunos. ´Se você sabe o que está fazendo e é bom naquilo que você faz, ganha respeito automaticamente`, diz Cho. Mas o respeito conferido a ele e aos seus colegas coreanos ocidentais vem mais do que apenas uma reação às habilidades técnicas que possui. Vêm de um reconhecimento do treinamento severo que tiveram e da forma como este treinamento se reflete em suas aulas. Cho começou a treinar em 1959, contra a vontade da família. Diferentemente dos seus amigos, ele valorizou o que aprendeu e se tornou um faixa-preta e então um instrutor. ´Meus professores na Coréia eram muito duros comigo e com meus colegas`, conta. ´Se 10 pessoas se inscrevessem para aula naquela semana, oito ou nove saiam na semana seguinte. Nós lutávamos em contato e de forma intensa o tempo todo. Naquela época, não tínhamos nenhum tipo de equipamento. Os alunos sempre se machucavam, pois os treinos eram severos`. Apesar da educação rígida, Cho insiste que há mais nas artes marciais do que alguns instrutores ensinam aos seus alunos. ´Lutar não é o aspecto principal do taekwondo`, diz ele. Em vez disto ele argumenta que o desenvolvimento do caráter, a filosofia, a moral e a saúde física são as reais prioridades do treinamento.Escolas coreanas tradicionais mantêm padrões rígidos de disciplina e protocolo (etiqueta). Embora possa parecer desnecessário ao ocidental comum, o programa tem funcionado tão bem que as aulas de taekwondo frequentemente recebem mais alunos que outras artes marciais. Cho credita isto às tradições rígidas de taekwondo. Disciplina e protocolo significam quase a mesma coisa nas escolas de taekwondo. Estudantes usam uniformes que têm e devem estar de acordo com os códigos rígidos de limpeza, modelo e cor. Pequenas diferenças são permitidas. O efeito, até mesmo aos novatos, é um sentimento de ordem e de ajuste. O exército há muito reconhece que uniformizar pode ser um símbolo de fazer parte, unidade e orgulho. O mesmo é verdadeiro nas artes marciais. A classificação por cor de faixa é o segundo símbolo de disciplina e ordem que tem ajudado a colocar o taekwondo no topo. Os seres humanos são criaturas orientadas por alvos; os americanos são duplamente assim. Os graus de classificação e as promoções regulares no treinamento do taekwondo permitem que alunos estabeleçam metas e se esforcem por alcança-las. Muitos excelentes sistemas de lutas não têm atingido sucesso comercial porque as suas tradições demonstram claramente a falta de procedimentos no estabelecimento de metas.Á formalidade é o terceiro ingrediente chave na disciplina do taekwondo. Os alunos são orientados a chamarem seus instrutores pelo título ou pelo sobrenome. Até mesmo alunos que treinam durante anos com o mesmo instrutor se referem a ele dessa mesma maneira no local de aula. Este elemento de formalidade parece simples, mas sua contribuição para construir e manter disciplina é poderosa. Na realidade, disciplina é o benefício primordial no treinamento do taekwondo. Cho acredita que a arte desenvolve este atributo em dois níveis. O primeiro envolve disciplina física. Taekwondo exige esforço físico ao extremo. Constrói equilíbrio, poder, flexibilidade, da força muscular e coordenação. Atingir um grau alto leva anos, e até que um estudante alcance a faixa preta, ele terá estabelecido, provavelmente, um hábito de exercício para toda a vida. O segundo nível envolve disciplina mental. Treinando o corpo para executar tarefas difíceis sob rígidas linhas de disciplina, força a mente a se tornar mais ordenada. Alguns estudos sugeriram até mesmo que as pessoas que treinam constantemente possam ver uma melhora nas suas habilidades acadêmicas. A disciplina mental adquirida no treinamento do taekwondo é aplicada em todos os aspectos da vida.
Sobre o autor: Mark VanSchuyver é um escritor independente e artista marcial.
Tradução e Adptação: Tkdlivre com Fonte: http://www.blackbeltmag.com/document/491
sábado, 22 de novembro de 2008
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