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domingo, 30 de novembro de 2008

UMA REFLEXÃO SOBRE SER MESTRE

O que seria esta especial condição que alguém pode alcançar?

A história do homem tem dado indícios de quais ingredientes poderiam ser levados em consideração para qualificar alguém como Mestre. Mas hoje, o que significa ser um Mestre?
Costumamos considerar Mestre, aquele que é versado, habilitado ou capacitado em uma arte ou ciência. Por exemplo, Vila-Lobos na música, Jorge Amado na literatura, Oscar Niemayer na Arquitetura, Aleijadinho na arte barroca, Einstein na física e tantos outros.

O dicionário Aurélio nos dá alguns indicativos:
Mestre.... 1.Homem que ensina; professor; 2.Aquele que é perito ou versado numa ciência ou arte...3.Homem superior e de muito saber: 4.Aquele que se avantaja em qualquer coisa: Em criar confusões ele é mestre...11.Diretor espiritual; mentor, confessor...13.Aquele que tem o mestrado (5)...21.Bras. Cap. Título concedido a capoeiristas mais experientes, com notório saber e longa vivência na capoeira...23.Que é superior a... 25.Que é o mais importante; que serve de base ou de guia; principal, fundamental:

Nas Artes Marciais, ao longo da história, fomos associando este título a indivíduos realmente excepcionais, tais como: Ms Sokaku Takeda (Daitoryu Aikijujutsu), Ms Murihei Ueshiba (Aikido), Ms Funakoshi (Karatê), Ms Young Sul Choi (Hapkido), Ms Choi Hong Hi (Taekwondo), Ms Hwang Kee (Môo Duk Kwan) entre tantos que deram uma contribuição espetacular para inúmeras modalidades de Artes Marciais ou Esportes de Combates e tantos outros com o mesmo grau de importância.

Todavia, nestes últimos anos muita coisa mudou. Alguns valores deram espaço a outros que até então eram inconcebíveis. A modernização das Artes Marciais, na tentativa de se adaptarem aos novos tempos, fez com que perdessem sua essência, como a luta pela sobrevivência ou o vencer para não ser vencido, a união entre a prática física e a espiritual, a filosofia, ou sua própria história dando lugar ao novo, ou seja, às competições, às exibições e o espetáculo.

Não seria radical afirmar que estamos na contramão da história e que nos perdemos no nosso próprio egoísmo, desrespeitando todo um acúmulo de centenas de anos de trabalho de um considerável conhecimento das potencialidades humanas.

Ora, hoje o termo mestre é usado como cordialidade ou educação pelo conjunto da sociedade. Também pertence ao meio acadêmico, referindo-se àquele que conclui um curso Stricto-sensu, um mestrado.

Para as Artes Marciais este termo é uma designação a praticantes muito experientes e com longo tempo de estudo de sua arte.

No Taekwondo, não é diferente. Os praticantes, depois de atingirem o estágio de Faixa Preta reiniciam um outro e longo caminho de aprendizagem e essa graduação é geralmente denominada Dan, do 1º ao 9º ou 10º.

Até bem pouco tempo não era comum encontrar pessoas com essas graduações, o que para muitos dos praticantes significava um sonho. Hoje isto mudou, ser um Faixa Preta perdeu o encanto. Aquilo que era algo de difícil acesso ou conquista, perdeu o charme. Encontramos Faixas Pretas em qualquer lugar. E o que é pior, com comportamento totalmente incoerente com o estágio conquistado.

Já que ser graduado com Dans ficou comum, a moda agora é virar mestre. E alguns chegam a este estágio de maneiras tão estranhas que chega a espantar; o comércio, a politicagem, chantagem, submissão, subserviência, prestação de serviços, favores e tantas outras. Menos com treinos, dedicação, reflexão, humildade, meditação e compromisso com a conduta adequada. Ser um mestre hoje se popularizou tanto que já esta perdendo a graça; a nova onda, pelo jeito, será ser Grão-Mestre. Grande nem que seja nos dans, já que a maestria e a grandeza do espírito pouco importa. É desagradável ver que muitos graduados querem mais graus e esquecem que grandes conquistas implicam em grandes responsabilidades.

Ser Mestre é uma condição muito especial e não é para qualquer um. Alguns mestres atuais podem até desfilar com seus “risquinhos na faixa”, mas, enganam-se a si mesmos e a outros expondo as Artes Marciais ao descrédito. O lamentável é que não adquiriram isso sozinho, tiveram um Grão-Mestre que compactuando com estas discrepâncias, não percebendo que também se tornariam vítimas nessa banalização de Dans e Mestres; sem contar o desrespeito com aqueles que fazem jus a tal distinção.

Na essência da nossa reflexão, o verdadeiro mestre é, portanto, aquele que se tornou senhor de si, isto é, mestre de si mesmo. Alguém com o espírito diferenciado e mais próximo da iluminação. Segundo Georges Gusdorf: “Professores há muitos; mestres, dignos deste nome raros o são. O mestre é. Porque a sua vida tem um sentido, ensina a possibilidade de existir (...).” Entende-se que os professores ensinam por palavras, com os Mestres aprendemos por ações e exemplos.

Jesus, segundo o Evangelho de São Lucas 6:40 disse: Não é o discípulo mais do que o seu mestre; mas todo o que for bem instruído será como o seu mestre. Não seria esta a missão de um Mestre? Colaborar para crescimento e independência do aluno? Não seria ensiná-lo a andar por si só e poder se orgulhar por dar essa contribuição? Não seria este o ideal de criação dos nossos filhos?

A questão do ser mestre vai muito além da própria definição. É muito mais que um adjetivo, é uma condição, um papel que se desempenha. Por isso, devemos considerar que esse termo especial nem sempre é usado para definir qualidade, pois há casos em que o sujeito é mestre, mas em algo nada louvável. Consideremos que alguém somente será um verdadeiro mestre, se tiver alunos, e essa qualidade só ficará evidente quando houver uma relação de aprendizagem, mas não uma relação simples, algo bem maior para o seu discípulo como; a tarefa de educar, dar rumo, direção, um norte, uma causa, enfim, um sentido para a vida.

No sentido filosófico do termo, a existência do mestre pode ser mensurada pela qualidade de sua obra e pelas atitudes de seus discípulos.

“O mestre e o discípulo não se descobrem como tais senão na relação que os une (...) pode-se dizer que é o discípulo que faz o mestre, e o mestre que faz o discípulo.” Gusdorf (1970:250).

Costumamos fazer muita confusão nesta relação, pois, valorizamos em demasia o título, e esquecemos de sua essência. A relação Mestre / Aluno, implica em um aceitar o outro e se isto não acontece; nada mais tem sentido. Vemos muitos mestres querendo arrancar o respeito pela simples ostentação deste grau, ou até à força, sem perceberem que eles também precisam ser aceitos, pois caso contrário, o ser mestre não significará nada.

Portanto, mesmo que nos esforcemos para manter dentro das Artes Marciais alguns costumes que aprendemos e que continuamos a reproduzi-los, faz-se necessária uma séria reflexão sobre esta questão; caso contrário nos tornaremos “mestres” do nada, e o pior, nem de nós mesmos.

De qualquer forma, mesmo que alguns achem mais prático entender a condição de mestre como um mero grau burocrático, haverá outros em busca de um verdadeiro Mestre, não um instrutor, um professor, um técnico ou um bom treinador, essa é a parte mais fácil. Um mestre no sentido amplo da palavra com igual importância, que se enquadre no sentido mais nobre do termo. Alguém com a missão de ensinar um pouco mais do que técnicas, que saiba conduzir os seus no caminho ideal das artes marciais, além de entender e assumir integralmente sua condição humana.

José Afonso Nunes
F. Preta 2º Dan – CBTKD
Mossoró - RN

CONSIDERAÇÕES SOBRE MESTRES, FEDERAÇÕES, PARTICIPAÇÃO POLÍTICA E LIBERDADE INDIVIDUAL

O Taekwondo tem passado nestes últimos anos por grandes transformações a nível mundial. O Brasil não resistiu a esses fortes ventos vindos lá de fora e já não somos mais os mesmos. Essas mudanças, embora necessárias, implicam em sacrifício, e com essas transformações temos observado o surgimento de barreiras até então, aparentemente intransponíveis. Sabe-se que o Taekwondo chegou ao Brasil na virada dos anos 70. De lá para cá grandes mestres coreanos se revezaram na solidificação desta Arte Marcial em solo brasileiro. Minimizar esta contribuição seria um equívoco. Porém, percebemos que alguns mestres não conseguiram estabelecer uma ação padronizada, além de não terem dado mais atenção à formação de mestres brasileiros para continuar esta missão, que seria coordenar e administrar o TKD nacional. Com isto, as sucessões a nível estadual e nacional, que deveriam ser um processo normal, transformaram-se em uma espécie de quebra de braço entre mestres brasileiros e coreanos, o que gerou um clima de desconfiança, desarmonia e, conseqüente, instabilidade em nossas instituições. É evidente que importantes mestres coreanos, que até um determinado momento deram importante contribuição nesse processo, acomodaram-se em alguns cargos nas Federações ou na Confederação e abriram mão do seu papel fundamental, ser Mestres; transformando-se em dirigentes esportivos convencionais que a imprensa brasileira costuma chamar de cartolas. Esta acomodação, além de não ter ajudado na construção de um futuro estável em nossas instituições, deixou um vazio nos nossos referenciais éticos e morais, devido ao afastamento do seu papel principal, mestres formadores de homens e de caráter. E, se o Tae Kwon Do ainda pode ser considerado uma Arte Marcial, perdemos nossos guias na busca do DO, ou seja, do Caminho. Por outro lado, apressaram-se em formar mestres em alguns estados, para dar conta da demanda que surgia, colocando 4º e 5º Dans na cintura de gente que tem deixado muito a desejar. Esquecendo que para ser um bom mestre precisariam, no mínimo, de um cursinho de liderança, ética e relações interpessoais. Sobre as Federações, este modelo federativo coordenado pela confederação, ainda é o meio administrativo mais razoável. Porém, os encantos do poder contagiam as pessoas de maneira impressionante. Essa forma de coordenação das federações trouxe outros inconvenientes. Um deles foi o papel dos presidentes que de administradores eleitos para um mandato de tempo limitado, passaram a agir de modo a não abrir mais mão do cargo; transformando-se, em alguns casos, em cargo vitalício. A partir daí surgiram vários equívocos e inconvenientes. Outro problema foi a falta de entendimento entre algumas pessoas que assumiram esses postos e como deveria ser seu relacionamento com o conjunto dos taekwondistas. Surgiram vários casos de inversão de papéis, pois se eram escolhidos para cumprir um mandato e representar o coletivo, não seria justo, o presidente eleito, de posse do poder, colocar sua vontade na frente dos interesses coletivos. Esta distorção teve vários desdobramentos, tais como: • Ausência de debates mais regulares nas federações para resolverem os pontos que não eram consensuais: • Não avaliação do mandato, visto que a presidência das federações pertence ao conjunto dos taekwondistas: • Dificuldades no ingresso de novas associações, principalmente se estas pertencerem a um grupo não afinado com o presidente; • Mudanças unilaterais nos critérios de exames de faixa, deixando bons mestres fora do processo, quando não, centralizando os exames a um único e reduzido grupo que por um argumento administrativo ou burocrático se arroga de possuir legitimidade do que até então não lhe competia; • Os cargos dentro das federações, presidentes e diretores técnicos, foram confundidos e as questões técnicas, isto é, selecionados e exames de faixas, passaram a ser centralizados por estes presidentes, deixando os diretores técnicos com funções mais reduzidas. Com isto, criaram um dos maiores problemas que vivemos atualmente, a política se sobrepondo às questões técnicas. Contudo, a própria confederação, para não se indispor com estes presidentes, até por que são os eleitores do seu mandato, tem feito ´vistas grossas` sobre esses exageros. Desta forma, como alguém pode se opor ao presidente em exercício se é esta quem decide sozinho sobre seu futuro e o futuro dos seus alunos? Embora seja um raciocínio simplista, poderíamos analisar isso pelo seguinte ângulo: se o cargo de presidente é para o cumprimento de um mandato temporário e este é eletivo, como os responsáveis pelas associações ou academias, isto é, os eleitores ou possíveis eleitores deste posto, podem exercer seus direitos já que devem se submeter à vontade e aos mandos deste presidente? A relação não estaria invertida? Elegem o sujeito e depois se tornam, ao mesmo tempo, cúmplices, prisioneiros e vítimas desta centralização. Ultimamente falar em participação política nas federações de Taekwondo, se não for ofensa pode parecer piada. Até porque muitos desses presidentes são ´Mestres´, isto é, mais graduados. E ai se estabelece uma crise ética: respeito e subordinação ao mais graduado ou o cumprimento das normas, estatutos, leis e etc. Não é exagero afirmar que participação política e liberdade individual é um luxo que não cabe dentro de nossas instituições. O cumprimento dos requisitos legais só é importante quando as circunstâncias exigem e somente posto em prática quando os homens do poder acham necessário. Caso contrário, o que vemos é opressão, submissão, ´queimação`, desmoralização e exclusão. A participação do coletivo, respeito à liberdade individual, ética e transparência são ingredientes indispensáveis para a nossa harmonia. Enquanto os taekwondistas não enfrentarem uma discussão sobre esses temas, estaremos todos em constante conflito. Diante de tudo isto, não estaria na hora de deixarmos algumas pretensões pessoais em segundo plano e nos dedicarmos mais na construção de um convívio mais harmonioso e de respeito às diferenças de idéias? Por acaso não estamos esquecendo o DO pelo caminho?
E ainda há quem defenda que os fins justificam os meios.
José Afonso Nunes
Faixa Preta 2º Dan - CBTKD
Mossoró - RN